Fiocruz confirma: falta de testes por parte de governos leva à subnotificação

23 de abril de 2020 | _
Estudo realizado pela Fundação Oswaldo Cruz aponta um pouco da dimensão do descaso criminoso dos governos brasileiros que tem como decorrência a morte de milhares por COVID-19.

Segundo os números apontados pela Fiocruz, o número de pessoas internadas por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) em 2020 no Brasil é o maior desde 2010. Dados associados a esse número, como o aumento de internações fora de época, a presença de idosos como grupo mais afetado e o maior percentual de testes negativos para outras gripes são indicativos consistentes de que tais casos são de COVID-19, o que não é confirmado pela ausência de testes massivos para a população.

O levantamento da Fiocruz é feito por meio de um sistema denominado Infogripe, no qual todos os casos de SRAG são relatados pelos hospitais ao Ministério da Saúde e os dados são compilados nessa plataforma.

Segundo o levantamento feito pela Fiocruz a partir desses dados, até 4 de abril deste ano, o Brasil teve 33,5 mil internações por SRAG, um número muito superior à média anual desde 2010, de 3,9 mil casos. Mesmo em 2016, ano em que ocorreu um surto da gripe aviária (H1N1), foram registrados 10,4 mil casos até abril.



De acordo com Marcelo Gomes, coordenador da Infogripe, a causa para esse expressivo aumento é o contágio por COVID-19, que, no entanto, não é notificado como tal por não haver confirmação por meio de testes.

Outro especialista, Antonio Baneira, diretor da Sociedade Brasileira de Infectologia, corrobora a tese levantada pela Fiocruz: “Não tem nada que justifique o aumento do número de casos de idosos. A gente teve até vacinação antecipada dessas pessoas neste ano. Pode ter certeza que é Covid-19. É provavelmente quase tudo Covid-19. Não tem outra explicação pra isso”.

Ainda de acordo com a Infogripe, 70% dos testes realizados em pacientes que apresentam síndromes respiratórias agudas tem confirmado o diagnóstico de COVID-19, mas apenas uma pequena fração destes tem sido testados, indicando mais uma vez o imenso tamanho da subnotificação. Os números dão uma ideia mais precisa: até a última segunda-feira, 20, haviam sido diagnosticados 8.318 pacientes com COVID-19, contra 1.925 com outro vírus dentre o total dos pacientes com SARG; contudo, os classificados como “não-especificados” eram 15.752 e os que sequer haviam sido investigados, não recebendo nenhum tipo de teste, eram 42.817. Ou seja, nos baseando no número de 70% de diagnósticos para COVID-19 obtidos com os já testados podemos estimar em um número de 40.992 casos não notificados poe falta de testes. Esse é um índice concreto do tamanho do crime que o Estado brasileiro vem praticando.

O total de testes aplicados até hoje no Brasil é de 132.467, um número equivalente a 624 testes por milhão de habitantes. Comparemos esses números com os da Coréia do Sul (11.221 testes por milhão), Alemanha (25.211) ou EUA (o epicentro da crise hoje graças ao negacionista Trump que inspira Bolsonaro – 12.537 por milhão). E não é que estes governos estejam agindo de maneira consequente para salvar sua população, como vimos pela heróica greve dos trabalhadores da Amazon. A questão é que estão muitíssimo à frente do Brasil na questão mais elementar de todas: testar.

A verdade é que o governo Bolsonaro não fornece sequer uma estimativa confiável de quantos testes estão sendo realizados. De acordo com os últimos dados disponíveis, que retratam os dias entre 7 e 20 de abril, eram realizados ínfimos 5.400 testes por dia, o equivalente a 25 por cada um milhão de habitantes!

Segundo Aurélio Krieger, presidente da Fiocruz, o principal empecilho hoje está na capacidade de processamento dos testes, e não tanto na coleta.