Ibope admite 2º turno entre Bolsonaro e Haddad mas alerta para surpresas

1 de outubro de 2018 | _
Diretora-executiva do Ibope, onde trabalha há 30 anos, Márcia Cavallari acredita, com base nas últimas pesquisas, que o petista Fernando Haddad e o deputado Jair Bolsonaro, candidato ao Planalto do PSL, tem percentuais de intenções de votos consolidados que podem garantir sua presença no segundo turno.

Entretanto, Márcia lembra que é preciso considerar que há uma grande volatilidade de votos e também um contingente alto de 38% de indecisos. “Esse contingente pode mudar muita coisa”, afirmou.

Em entrevista ao JORNAL DO BRASIL, ela afirma que é prematuro fazer projeções sobre o segundo turno. E explica que é um novo pleito, no qual prevalece a rejeição: “quem eu não quero que ganhe”. “Essa simulação é hipotética, onde a gente consegue ver a força de um contra o outro. O segundo turno é uma nova eleição, começa do zero”, completou.

Esse quadro, a partir dessa última pesquisa do Ibope, está definido?

A pesquisa mostra hoje que tanto Bolsonaro quanto Haddad estão com o voto mais consolidado com relação aos seus concorrentes. Na pergunta estimulada e na espontânea, a diferença de voto dos dois é a menor. O Bolsonaro tem 28% quando se pergunta ‘se a eleição fosse hoje e os candidatos fossem esses, em quem você votaria’. E quando pergunto de cara ‘em que você votaria se as eleições fossem hoje’, 24% citam o Bolsonaro. É um voto firme, independente de quem são os candidatos. O mesmo ocorre para o Haddad, que na estimulada tem 22%, e na espontânea, 15%.

É grande a possibilidade de um 2º turno entre Haddad e Bolsonaro?

Com essa solidez do voto, é grande.

Se fala ainda sobre o Ciro. Ele poderia ainda ter uma esperança, e haver uma reviravolta, com já houve?

Existe, porque a gente vê ainda muita volatilidade no voto dos demais candidatos. São 38% das pessoas que não citam nenhum candidato na pergunta espontânea. Esse contingente pode mudar muita coisa. Não dá para afirmar nada agora, tem muita gente que ainda não decidiu.

Esse contingente, em outras eleições, segue o quadro que já existe ou vota de forma surpreendente?

O que eu vejo sistematicamente em várias eleições é que esses indecisos até o final não se distribuem igualmente entre os já decididos. Vemos crescimento de segundos e terceiros colocados em proporção maior. Uma pergunta que a gente faz é se essa decisão de votos é definitiva ou não. E quem tem os maiores percentuais são também os dois: Haddad e Bolsonaro. Dos eleitores do Bolsonaro, 49%, já o Haddad, 51%. Quando você olha o Ciro, 32% dizem que não mudam mais. Alckmin, 30%. Marina, 21%.

A senhora acha que Marina e Alckmin ainda teriam alguma chance?

Marina está numa curva descendente. Ela estava com um voto temporário do PT, que com a ausência de Lula no cenário, tinha migrado para ela. Agora, com a oficialização da candidatura do Haddad, esse voto voltou para o PT. O que não aconteceu com o Ciro. Ele também cresceu no vazio do PT, mas o que foi para ele, ficou. Vemos agora o crescimento do Haddad em cima de uma diminuição dos votos brancos e nulos. E em cima dos votos que tinham migrado para a Marina. Alckmin está numa situação estável. Agora, movimentos ainda podem acontecer. Com a campanha de ataque ao Bolsonaro, ele ficou estável, ou seja, não perdeu voto. Mas aumentou a rejeição. E aumentou a distância dele para os demais nas simulações de segundo turno.

Se consideramos um universo de 38% flutuando, essas simulações de 2º turno não são prematuras?

As simulações não refletem o que vai ser de fato o segundo turno. O próprio resultado oficial do primeiro turno e a composição de forças que se redistribuem e se reagrupam exercem um efeito no eleitor para votar no segundo.

Essa simulação é hipotética, onde a gente consegue ver a força de um contra o outro. O segundo turno é uma nova eleição, começa do zero. Em 2010, as duas pesquisas que nós divulgamos já na ocorrência do segundo turno, o Aécio veio na frente, e só depois é que virou para a Dilma. Normalmente, o que a gente vê de comportamento é que o eleitor, no primeiro turno, vota no candidato que ele gosta. E no segundo, o que pesa é, não só a preferência, mas quem eu não quero que ganhe.

O movimento das mulheres e o ‘Ele Não’ dos intelectuais pesam ou não atinge o eleitorado?

Não dá para saber exatamente, porque não dá para isolar o efeito de cada uma das ações. Uma pesquisa registra o conjunto dos efeitos. Mas nas mulheres, a gente vê, nitidamente, desde a primeira pesquisa até agora, que ele cresceu de 13% para 21%. Por outro lado, ele tem uma rejeição de 54% entre as mulheres.

Parece que a rejeição dele também é forte no nordeste, não é?

Vamos ter uma eleição bastante polarizada, com perfis de eleitores antagônicos.

Qual é a característica básica do eleitor de um e de outro?

Do Bolsonaro, basicamente, são homens, que chega 35%. Entre as mulheres, ele tem 21%. Jovem, de 16 a 24 anos, ele tem 27%. Ensino médio, ele tem 31% e superior, 33%. Então é homem, jovem, escolaridade alta, na renda de mais de cinco salários mínimos, com 42%. Em região, ele tem força no Norte, Centro-oeste e no Sudeste, com 31%, puxado pelo Rio.

O Haddad, com os homens, por exemplo, tem 22%. Entre as mulheres, ele tem 21%. Na faixa etária também é bastante homogêneo, dos 25 a 54, ele tem em torno de 20%. São 28% entre as pessoas que têm o ensino fundamental I, e 26% dos que têm fundamental II. É uma instrução mais baixa. São 30% das pessoas que têm até um salário mínimo. No Nordeste, ele tem 34%, e Norte e Centro-oeste, 20%. No Sudeste, ele tem 16%.

O eleitor do Haddad tem a ver com o perfil do eleitor do Lula, não é?

Isso. Fazendo um resgate das últimas eleições, em 2002, o Lula foi eleito com 61% dos votos válidos no segundo turno de forma bastante homogênea nas regiões. Vem o mensalão em 2005, e na reeleição de 2006 houve uma clivagem social forte nesses votos. Não foi mais homogêneo em todas as camadas sociais e geografias do país. Quando foi eleição da Dilma, o mesmo eleitor do Lula votou nela. Perde um pouco de força a clivagem, mas ainda foi o mesmo eleitor.

Em 2010, ganha força o voto geográfico. O mesmo está acontecendo com o Haddad.

O Montenegro acha que pode subir a rejeição do Haddad por causa da exposição dele…

Quando os candidatos estão mais expostos, eles têm maior rejeição. Quem está na frente sempre é atacado pelos adversários. O Haddad não era tão conhecido, ele passou a ser com a oficialização da candidatura. Essa exposição pode se dar para o bem e para o mal. O PT é o partido de preferência, mas é também o mais rejeitado.

Há possibilidade de voto útil nesse primeiro turno?

Em eleição presidencial nunca vivemos isso. Já vi acontecer para municipal e governador. A probabilidade não é zero, mas numa dimensão do Brasil isso é mais difícil.

O Haddad pode passar o Bolsonaro até o 7 de outubro?

Não sei. Não sabemos qual é o teto dele.

Ou seja, ainda podemos ser surpreendidos…

Sim. A pesquisa não tem esse poder de falar que o que está acontecendo hoje vai refletir o amanhã. Essa campanha é o maior exemplo de que ela só reflete o momento.

do Jornal do Brasil