Eduardo Lemos: Em Macau, no passado, o dueto “pão e circo” andou lado a lado. No presente, a falta de recursos financeiros nas mãos da população retirou o pão.

3 de fevereiro de 2018 | _
O médico e líder político de Macau, Dr. Eduardo Lemos envia ao blog o que chamo de Carta à Macau, onde Eduardo escreve aos amigos sobres o carnaval anunciado pela prefeitura em um momento critico que vive a comunidade macauense.

Macau, nas palavras do médico necessita de reordenamento administrativo e, vive seu pior momento.

"Sou contra a fome; sou contra trabalhar e não receber; sou contra a falta de medicamentos; sou contra o sucateamento das escolas; sou contra a ausência da merenda escolar; ,,," Eduardo Lemos.

Leia na íntegra:

Caros amigos,

Sempre gostei e participei de carnaval. Especialmente o carnaval da minha terra. Quando morava no Rio de Janeiro, fazia o caminho inverso do resto do mundo. Pessoas dos cinco continentes dirigiam-se para o Rio de Janeiro a fim de curtir o Reinado de Momo, mas eu preferia a simplicidade, a espontaneidade e a felicidade verdadeira das festividades momescas realizadas em Macau. Acompanhei vários momentos do alegre carnaval macauense, que gostaria de rememorar:

Assisti a embates sadios entre as escolas de samba Ases do Ritmo e Imperadores do Samba, lideradas, respectivamente, por Titico e Lila. Eram o Centro/Valadão e o Porto de São Pedro na disputa, mas, no fim, todos se irmanavam imbuídos do espírito carnavalesco;

Ouvi Seu Virgílio, com seu sax, entoando o Passo da Ema;
Vi Zezinho dedilhando com maestria o seu bandolim;
Assisti a Mario de Zé de Badalo dando show com seu trombone de vara;
Vi os índios de Inácio e de seu “Manoel dos Índios” desfilando pelas ruas de Macau;
Quando criança, levei muito susto com os papangus;
Assisti o bloco “Os Sombras”, de Chico Antônio, Dedé de Dudu & Cia, animar as ruas de Macau;

Brinquei muito no Bloco do Boi, conduzido pelos amigos Osni,George Pantera e Netão;
Não perdia uma só noite no Lions Clube, com Aldo Seixas;
Brinquei no Jardim, juntamente com vários primos e amigos;
Na era dos trios, não hesitei e fui para o mela-mela.

Como vocês podem ver, o carnaval está presente na minha vida. Não sou, absolutamente, contra o carnaval. Sou contra a fome; sou contra trabalhar e não receber; sou contra a falta de medicamentos; sou contra o sucateamento das escolas; sou contra a ausência da merenda escolar; sou contra o desrespeito para com o funcionalismo público; sou contra a sujeira nas ruas da cidade; sou contra a falta de foco e planejamento da administração pública; sou contra a inversão de prioridades; enfim, sou contra tudo que atente contra o bem-estar e a dignidade do cidadão.

Na situação em que Macau se encontra, a realização de um carnaval com o beneplácito e a tutela do Poder Público é extremamente desaconselhável. A prioridade não deve ser a festa, mas encarar e combater os inúmeros problemas enfrentados pelos munícipes. A dor e a lágrima de sofrimento não combinam com festividade. Rogo a Deus para que o bom senso paire sobre as cabeças dos idealizadores da festa momesca e os faça recuar de tão insensata atitude.

O momento delicado não está propício para carnaval. Macau está precisando de um reordenamento administrativo, no qual a austeridade e a competência sejam os porta-bandeiras da gestão. Macau não precisa de atração musical. Macau precisa de criatividade, para que as prioridades sejam estabelecidas e executadas. Macau não precisa de notícias momescas, mas necessita urgentemente de ações que beneficiem o coletivo.

De fato, o cenário econômico nacional tem forte influência nos municípios brasileiros. Os problemas locais existem e são sérios. Dar as costas para eles é negar o óbvio. No entanto, nem tudo está perdido. Os gestores precisam ter humildade e ouvir as vozes que querem ajudar. Sempre defendi a tese de que os homens públicos devem ter um diálogo franco, aberto e verdadeiro com o povo. Aliados ocasionais e oportunistas nada acrescentam.

Os quatro dias de folia passam rapidamente e, cessado o efeito do anestésico momesco, voltaremos ao mundo real. Caso não ocorra o devido reordenamento político-administrativo, a quarta-feira e os dias que seguirão continuarão a ser de cinzas.

Em Macau, no passado, o dueto “pão e circo” andou lado a lado. No presente, a falta de recursos financeiros nas mãos da população retirou o pão.

03 de fevereiro de 2018.

Eduardo Lemos.