Editorial: desabafo do editor sobre uma sociedade hipócrita de volares deletérios

17 de dezembro de 2017 | _
Cresci numa família fui criado na maior parte do tempo, por minha mãe, pois meu pai trabalhava e durante boa parte do ano, não estávamos juntos, porque viajava para fora do país, onde conheceu várias culturas em diferentes nações, viajou os 5 continentes, por muitas vezes para nos encontrarmos eu e minha mãe viajamos muito para poder vê-lo enquanto estava em alguma lugar próximo do Rio, onde moramos por algum tempo. Mamãe foi meu referencial de pai nos tempos de criança e por muitos na adolescência, nesse período papai já estava mais presente, havia mudado de emprego, vindo para perto da família. Católicos sempre teve valores rígidos. Honestidade para ela e ele nunca teve nuances. Sempre foi parte essencial da conduta em tudo nas suas vidas. Fui educado para ser um ser humano do bem e honrado, em casa, na escola, no trabalho, no convívio social. Mentir era uma afronta imperdoável. O que é seu é seu e o que é dos outros é dos outros. Se você quer algo trabalhe e conquiste com seu suor. Se você quer mudar sua vida, estude, dispute seu espaço com honra. Não inveje teu amigo, nem teu vizinho. Não faça concessões ao vício. A virtude é sempre o caminho.

Por que faço este texto e com essa introdução? Simples, e complicado ao mesmo tempo. Quero apenas encontrar uma justificativa para expressar minhas dificuldades em assimilar os valores pelos quais a sociedade brasileira se conduz atualmente. Não tem sido para mim, fácil conviver com amigos, familiares e pessoas absolutamente íntegras aceitarem com naturalidade os "novos costumes", nada profícuo, e sim, deletério a sociedade como um todo, seja na (política, educação, saúde e segurança) não importa, estamos sempre achando normal o imoral. Ignoramos tudo aquilo que achamos que não acontecerá "comigo", rimos, aplaudimos mesmos sem concordar, para não parecer chato, do contra, homofóbico. Chega de tanta hipocrisia! Diga não para o que você não valoriza, não deixem que te empurre de goela a dentro, reajam contra o imoral.

As vezes não quero acreditar, mas me sinto como um "peixe fora d'água", vivendo numa democracia, que tenho que ter pensamentos e atitudes iguais aos meus amigos, impedido de qualquer tipo de manifesto contrário, ou posso ser até ridicularizado ou chamado de retrogrado, démodé sei lá mais o que. Quero acreditar que não nos tornamos tão cínicos e canalhas que, observando certas cenas, não sejamos incomodados por um desconforto moral. Mas, o que se pode esperar de um povo que ver o errado como certo. 

Quem pais é esse onde valores são esquecidos, se valoriza as falcatruas, as vantagens, desprezam a cultura a história e dão valores as espertezas. As vezes me pergunto se não estou sendo bisonho a estes questionamentos. Não consigo entender o que ganhamos com esta cultura nacional da esperteza. A propósito, esta cultura provoca fenômenos sociais interessantes. Um exemplo disso são a sociedade em que nos tornamos, uma sociedade que despreza o sucesso. Onde ser bem sucedido é quase um crime. Provoca inveja e um raciocínio do tipo “aquele sujeito se deu bem, achou uma boquinha, recebeu um bubu, conseguiu uma mamata, sacaneou alguém”. Não se reconhece o mérito, o talento, a capacidade de alguém ser bem sucedido pelo trabalho, pelo esforço, pela competência. O raciocínio é sempre que o cara se deu bem, foi esperto, deu um jeito. Temos profunda desconfiança do sucesso de alguém.

Aqui, o valorizado é o "mané", o puxa-saco, o chantagista e não se valoriza a evolução pelo mérito, comum em sociedades avançadas. Aqui somos uma sociedade que dá pouco ou nenhum valor para professores, educadores, cientistas, pesquisadores e todas aquelas profissões nas quais as pessoas tem que estudar muito e dar duro por anos para conquistar alguma coisa. 

Um país onde se valoriza a fofoca, onde se torce pela desgraça do amigo, do vizinho, do colega de trabalho. Aonde a Fátima Bernardes vira notícia quando desembarca numa praia do interior do Rio Grande do Norte com o namorado até então desconhecido e agora convocado para dar entrevistas. Um país com essa cultura continuará sendo um país atrasado, de gente sofrida, ignorante, guiada pela grande mídia alienando-os e levando-os a um caminho cada vez mais sem rumo. Aqui se valoriza os maus costumes, tudo tem que ser rápido, sem esforço, porque aqui tudo se ajeita, trabalhar é para os trouxas.

Quero que nossos filhos tenham boa educação, mas não reconhecemos o valor de nossos professores. Amamos o policial violento, aquele que mata quem nos incomoda. Não aquele que é eficiente em resolver crimes. Endeusamos jogadores que se dão bem na vida pulando etapas como a educação. Comentamos com regozijo quando, mesmo ganhando fortunas em contratos internacionais, levam nossa malandragem para o exterior e dão golpes na receita dos países que os acolhem.

Não nos incomoda ver políticos e castas do serviço público terem privilégios absurdos e imorais, típicos de republiquetas absolutistas. Aceitamos os serviços degradantes que recebemos apesar de pagarmos absurdamente caro por eles com impostos arrecadados, sobretudo dos mais pobres.

Nos comportamos como hipocrisia de carteirinha ilimitada. O mesmo empresário que frauda uma licitação e suborna um agente público impõe regras em sua empresa. O mesmo cidadão que compra CDs e softwares piratas deseja que seu projeto, no qual investiu tempo e esforço, não seja copiado e subtraído. O sujeito que estaciona em vaga de deficiente no shopping é acometido de ira santa se alguém estaciona na frente da sua garagem.

Os exemplos são incontáveis. Invariavelmente quem comete estas infrações goza de prestígio social. Somos um país onde o esperto é ao mesmo tempo otário, porém alienado de sua condição de agente desta cultura e de exercer os dois papéis ao mesmo tempo.

Como nos tornamos tão cínicos e hipócritas é um fenômeno que precisa ser estudado. Tenho dificuldade em viver num país assim. Não questiono minha mãe e muito menos meu pai pelos valores que me ensinaram, mas constato que eles me transformaram num cidadão vulnerável neste tipo de sociedade.

Sinceramente digo todos os dias a minha esposa: não desejo criar meu filho aqui. Tenho o mais profundo desejo de mudar, de morar no exterior, numa cidade de porte médio na Europa ou ainda no Canadá. Mas não sou o dono de meu destino, sou dono apenas de minhas escolhas, de minha vida, o dono é o criador, e a Ele enrego-a em tuas mãos.