Roberto Amaral: “Não subestimo Bolsonaro”

31 de julho de 2017 | _
A emergência do pensamento reacionário representada pelo deputado, diz o ex-ministro, precisa ser compreendida e combatida

Jair Bolsonaro é a expressão mais evidente da emergência do pensamento reacionário no Brasil, estimulado pela expansão das igrejas neopentecostais nas periferias e pelo medo da violência. A direita mostrar-se como tal, afirma o ex-ministro Roberto Amaral, representa um avanço no debate ideológico, mas o campo progressista precisa às pressas de um discurso capaz de oferecer um contraponto. Segundo o ministro, Lula é a única alternativa para o PT e para as esquerdas e deveria lançar imediatamente sua candidatura. Seria uma forma, inclusive, de evitar qualquer manobra para impedir a realização das eleições em 2018. 

CartaCapital: Como o senhor interpreta o apoio a Jair Bolsonaro?

Roberto Amaral: É um fato novo, não sei se bom ou trágico. Ele representa a emergência da extrema-direita. Lamento o crescimento da direita e o avanço desse pensamento nas periferias, estimulado pelo neopentecostalismo e pelo medo da violência. Isso mina as bases progressistas e não há um discurso reparador para se contrapor. Ao mesmo tempo, do ponto-de-vista do debate ideológico, é um avanço a direita se assumir como tal, não mais se declarar liberal e democrática. Até o momento o campo progressista não teve tempo de travar um debate ideológico equilibrado. Na sociedade de massas, é preciso da mediação. No Brasil, existe um oligopólio empresarial e um monopólio ideológico nos meios de comunicação. Só um lado controla o fluxo das informações e isso dificulta a reação da esquerda. Não subestimo o Bolsonaro e seu significado. Mas se tivermos coragem de ir a fundo nas causas desse avanço da direita, podemos ter um salto de qualidade no campo progressista.

CC: Existe um plano B no campo progressista caso Lula não possa se candidatar?

RA: Não.

CC: O Lula tem aventado alguns nomes. Citou recentemente o ex-prefeito Fernando Haddad. Não seria insistir em uma fórmula fracassada?

RA: Admiro o Haddad. De todos os nomes testados pelo Lula em busca de renovação, o ex-prefeito de São Paulo é o único a sobrar.

CC: O Haddad não demonstrou na administração de São Paulo os mesmos problemas de Dilma na presidência: incapacidade de articulação política e falta de empatia?

RA: Faz parte do aprendizado. O Haddad foi um bom prefeito e acabou derrotado não pelos seus erros, mas pela reação paulistana ao PT. De qualquer forma, não vejo condições de se pensar em um plano B. O Partido dos Trabalhadores só pode ter um plano, uma alternativa: a candidatura Lula. E não só eu sei disso. Esse esforço conjunto da mídia, da Justiça, do Ministério Público e do sistema financeiro para barrá-lo revela que as forças que produziram o golpe também percebem seu papel crucial. Eu concentraria todas as fichas na candidatura do Lula e iniciaria a campanha imediatamente. Isso poderia garantir o retorno das forças populares ao poder e a realização das eleições em 2018 sem mudanças no modelo presidencialista. Com a campanha de Lula nas ruas, fica mais difícil inviabilizar a disputa no próximo ano ou a promoção de uma reforma política que descaracterize o presidencialismo.

CC: O PT sobreviveria ao impedimento de Lula?

RA: Sobreviveria, mas muito menor. Continua a ser o partido mais enraizado. Fico comovido com a militância, mas 80% do PT é o Lula. Todo partido sobrevive de estar ou da chance de chegar ao poder. O PT cresceu de forma mais expressiva quando se tornou uma expectativa real de poder. Acontece exatamente o mesmo neste momento com o “falecido” DEM. A possibilidade de Rodrigo Maia ocupar o lugar de Temer revigorou a legenda.

CC: O PT continua incapaz de se reinventar e de se aproximar da população que diz representar. Qual a dificuldade?

RA: Isso vale para o campo progressista de forma geral. Marx não explica. As estruturas, desde aquelas antigas dos partidos comunistas, sempre foram acometidas de rápida esclerose. São rígidas, resistentes ao novo. No caso do Brasil, esse fenômeno se une a uma tradição da subordinação das ideologias e doutrinas a lideranças carismáticas. Ocorre à direita e à esquerda. O trabalhismo confundia-se com o varguismo. A UDN era o brigadeirismo e depois o lacerdismo. O populismo, o adhemarismo e o janismo. O lulismo é muito maior que o petismo. O mais engraçado é que a revisão, a autocrítica, faz parte da metodologia marxista, raramente aplicada. Essa reflexão precisa, no entanto, ser profunda e não só nos partidos. Os sindicatos, os movimentos sociais, também necessitam buscar uma reflexão, discutir paradigmas, certezas. Muitas posições ideológicas tem sido contrariadas pela realidade.

CC: Quais as bases de um programa de governo progressista para 2018 em diante?

RA: Os governos Lula e a primeira administração da Dilma não eram de esquerda. O programa era, mas a execução foi de centro-esquerda. O presidente do Banco Central no governo Lula era o Henrique Meirelles. Entre Meirelles e Joaquim Levy, a única diferença está no nome e sobrenome. Um programa de esquerda tem de se basear em uma aliança com as forças populares. O programa do Lula, até certo ponto bem-sucedido, tinha como ponto de partida a “Carta ao Povo Brasileiro”, claramente um acordo com a classe dominante. Esse acordo hoje é difícil, pois foi rompido pela elite no impeachment da Dilma, em especial pelo sistema financeiro.

CC: A Carta ao Povo Brasileiro não foi exatamente redigida para o povo...

RA: É preciso uma carta direcionada de fato ao povo. Uma das transformações fundamentais é promover uma revisão constitucional, por reforma ou por constituinte. É impossível ter um Congresso controlado pelo poder econômico como hoje. É impossível um Judiciário partidarizado. Não se pode mais aceitar a insolvência da democracia. É preciso promover uma reforma tributária, retomar a agrária. E ter coragem de afirma-las, para não se repetir o divórcio entre as promessas de campanha e o exercício do mandato. Temos de defender as empresas estatais, de postular o retorno de uma política externa independente. Um programa assim aglutinaria as forças populares.

CC: O senhor continua a acreditar na possibilidade de formação de uma frente de esquerda?

RA: Defendo e continuo a considera-la possível. Penso, porém, não ser mais suficiente. Precisamos de uma frente ampla. O campo progressista representa cerca de 30% do eleitorado. Com esse porcentual, produz-se uma bela resistência, mas não garante a volta ao governo e muito menos viabiliza um projeto de desenvolvimento. Uma das nossas tragédias, resultado do presidencialismo de coalização, é se eleger o presidente, dar-lhe maioria dos votos, mas só lhe garantir uma minoria no Parlamento. Elege-se um programa e ao mesmo tempo um Congresso que não permitirá a aplicação das promessas de campanha. Daí nascem os escândalos, como o chamado “mensalão” ou este investigado pela Lava Jato.

CC: Qual a diferença da frente ampla para o surrado presidencialismo de coalizão?

RA: A Frente Ampla, como a concebo, avançaria da esquerda para os demais campos progressistas e democráticos. Algo que, se possível, lembrasse as articulações da campanha pelas Diretas Já nos anos 1980. Temos de atrair os extratos médios ponderados da sociedade. Não podemos considerar essa população entregue à direita, ao Bolsonaro.

CC: A Frente Ampla escaparia da velha conciliação que somente beneficia as elites?

RA: Só uma frente, com um dirigente que acredite no apelo à população, pode ter sucesso. O Lula teria de assumir o compromisso de unir à sua a campanha ao Parlamento. Dizer claramente que não adianta coloca-lo novamente na presidência da República se os eleitores não lhe derem uma maioria no Congresso. Se há maioria e apoio popular, brotam as condições para não se repetir os erros recentes. Há uma tendência trágica no Brasil de soluções por cima. Na nossa história, o povo é figurante. Você coloca a população na rua, enquanto negocia por cima. Escolho aqui o ano de 1961: o povo levantou-se contra a tentativa de impedimento da posse de João Goulart, Leonel Brizola articulou a Rede da Legalidade, derrotou-se o golpe, mas, na calada da noite, as elites implantaram o parlamentarismo. A primeira tentativa de derrubar o PT do governo foi em 2005 com o chamado mensalão. Os petistas se comportaram naquela altura da mesma forma do que em 2015, 2016. Recolheram-se assustado. O Lula mandou a estrutura partidária às favas, saiu às ruas e colheu apoio popular. Derrotou a conspiração e se reelegeu em 2006.

de Carta Capital